10 de Fevereiro de 2012
Uma obra cuja dimensão pode ser traduzida não apenas em números, mas, principalmente, no impacto causado nos municípios que serão influenciados pelo maior projeto industrial da América Latina, atualmente.
Assim tem sido vista a implantação do Comperj – anunciada pela Petrobras em março de 2006. Estima-se que o nível de investimentos, geração de empregos e arrecadação de impostos, trará nítidos benefícios e transformará, significativamente, o perfil sócio-econômico de toda a região.
No bairro Rio Várzea, em Itaboraí, a cerâmica Sulamérica viu cerca de 60% de seus funcionários migrarem para o Comperj. Para minimizar essa perda, o proprietário, Ricardo Nunes Siqueira, 47 anos, teve que adaptar todo o maquinário e readequar o ambiente de trabalho para absorver mão-de-obra feminina.
“Com o Comperj, percebo que há um êxodo grande de mão-de-obra para o empreendimento. Acredito que em outros setores aconteça a mesma coisa. É como se fosse uma ‘corrida do ouro’. Perdi 60% dos funcionários.
A maioria com tempo de casa grande. Há um ano tivemos que fazer uma pesquisa para criar condições de trabalho para o universo feminino. Adotamos uma série de modificações tecnológicas, educacionais e comportamentais para nos adequar ao ambiente feminino”, explicou Ricardo, que possui a cerâmica há 28 anos.
“Não resolvi meu problema, mas criei uma alternativa. Minha mão-de-obra ficou mais cara. A produtividade delas é menor em relação aos homens, mas a mulher é muito habilidosa e é o que o mercado exige hoje: produtos bem feitos. Daqui a quatro anos essa mão-de-obra da construção do Comperj, que é menos qualificada, vai acabar. Quando isso acontecer, o que eles vão fazer? Onde esse pessoal vai arrumar trabalho?”, questionou o empresário, orgulhoso por dar oportunidade a mulheres que, anteriormente, não tinham independência financeira.
É o caso Priscila de Jesus Santos, de 22 anos. Moradora de Tanguá, ela foi contratada há quatro meses.
“É meu primeiro emprego. Procurei serviço por quatro anos e consegui aqui. Essa oportunidade está sendo muito importante para mim”, comemorou.
Os efeitos do Complexo Petroquímico também são sentidos no bairro de Sambaetiba, onde 180 imóveis – a maioria sítios de pequenos produtores rurais – foram desapropriados. A única escola do bairro foi desativada e apenas 26 famílias continuam morando na região e enfrentam dificuldades por causa do abandono.
“Éramos considerados uma bacia leiteira, mas hoje o comprador se recusa a vir aqui por causa das péssimas condições das estradas, consequência da obra do Comperj. Produzimos milho, aipim, abóbora, leite e não conseguimos escoar nossa produção”, desabafou Leandro Porto Paz, 28, que é nascido e criado em Sambaetiba.
Já a comerciante Nair Barbosa da Silva, que há 50 mora no local, contou que amarga um prejuízo de R$ 3 mil por mês.
“Estou trabalhando de teimosa”, disse, lamentando a falta de clientes em seu mercadinho.
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