06 de Fevereiro de 2012
O bairro que dá nome ao 3º Distrito da cidade de Itaboraí é enriquecido por uma natureza privilegiada. O manguezal, resguardado pela Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim, proporciona diversificada vida marinha, fonte de sustento de dezenas de trabalhadores da região. O pescado e o caranguejo são, também, os principais atrativos de visitantes ao local.
Para incentivar essa atividade, o Governo Federal incluiu nos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a construção de um Centro Comunitário, onde deveriam ser comercializados esses produtos. O recurso de quase R$ 19 milhões também tinha por objetivo garantir obras de saneamento e habitação no local. Em outubro do ano passado, quando a equipe de O SÃO GONÇALO visitou Itambi, toda a região havia se transformado em um canteiro de obras. Quase um ano depois, as intervenções perderam o fôlego, prejudicando as atividades econômicas e diminuindo as expectativas das centenas de moradores.
O imóvel com cerca de 10 boxes de vendas e extenso salão para consumidores, situado na Rua Yamagata, chegou a ser inaugurado, mas nunca foi utilizado pelos catadores de caranguejo. Em vez disso, foi depredado por vândalos pichadores e, segundo os moradores, está servindo de moradia para mendigos e ponto de viciados em drogas.
“O entreposto da APA de Guapimirim também não está funcionando como deveria. Ainda temos que levar o pescado para o Mercado São Pedro, em Niterói. Isso só faz a gente perder tempo. Eles investiram dinheiro no Centro Comunitário e não podem deixar que destruam assim”, disse o pescador e catador de caranguejo, Silas Rosa, de 65 anos.
De acordo com a Secretaria Municipal de Pesca e Agricultura, o local não está totalmente desativado, visto que funciona uma base de fiscalização com guardas municipais de plantão 24h para manter a preservação ambiental e assegurar o cumprimento do defeso. A prefeitura reforçou, ainda, que o Centro Comunitário é de responsabilidade do Governo Federal.
Saneamento - A presidente da Associação de Moradores da Vila Nova de Itambi, Valéria Rosa, 36, destaca que a atividade dos pescadores também é prejudicada pela poluição do Rio Macabu, que desemboca no mangue. O principal motivo da devastação, segundo ela, é a falta de saneamento.
“A prefeitura instalou manilhas e iniciou a construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), mas ela nunca funcionou. Todo o esgoto do bairro vai parar no rio, provocando enchentes. Bueiros abertos também são constantes ameaças. Itambi é o local das obras inacabadas”, reclamou.
A Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos informou que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, prevê a construção de mais uma Estação de Tratamento de Água e Esgoto. O projeto está dentro do prazo estabelecido e deve ser entregue à população de acordo com as previsões do Governo Federal.
História dos casarões de mais de 300 anos está sendo destruída
Não é só o modo de vida rural da população de Itambi que remete o visitante ao passado. A arquitetura dos casarões, de até trezentos anos, possibilita uma viagem à história do local. A igreja do padroeiro do bairro, São Barnabé, que data de 1705, é mantida no mesmo estilo jesuítico em que foi erguida, apesar de já ter sido desfigurada por falta de conservação. Atualmente, o bom estado do imóvel é garantido pela solidariedade dos fiéis. Outras construções que não possuem a mesma ajuda foram degradadas ou destruídas totalmente. Uma perda de patrimônio histórico e turístico de Itaboraí.
A casa onde o idoso Brasil Alberto Júnior, 70 anos, foi criado na Rua Anchieta, pertenceu a seu avô há, pelo menos, 200 anos. Ela foi carinhosamente cuidada pela madrasta do atual proprietário até sua morte, mas desde então, começou um lamentável processo de depredação. Os pequenos reparos, feitos com limitados recursos próprios, não foram suficientes para recuperar a propriedade de seis quartos, duas cozinhas, sala e banheiro espaçosos. Durante as fortes chuvas de abril, as grossas paredes e o telhado construído com madeira maciça desabaram. Sentado em frente a casa onde passou sua infância, o idoso descreveu o antigo cenário do bairro. Imagens que, hoje, estão apenas em sua memória, sem registro físico.
A professora Alcenir Bastos Alberto, 59, uma das responsáveis por Brasil, que é deficiente mental, relatou a tristeza de ver parte da história de sua família e da cidade virar entulho.
“Por sorte, nós já havíamos convencido o Brasil, que vivia sozinho na casa, a deixá-la e ir morar comigo e com o meu marido, sobrinho dele. Aos poucos fomos percebendo que a estrutura não estava boa e, depois de um dia de forte chuva, a casa despencou por volta das 23h. Além do grande susto, ficamos muito triste em saber que outras pessoas não poderão conhecer a maravilhosa arquitetura do passado”, disse.
Na mesma rua, um outro casarão, onde funcionava a antiga sede da Empresa de Correios e Telégrafos, também foi parcialmente destruído. O Departamento de Cultura e Patrimônio Histórico do Município aguarda verba de R$ 14 milhões do PAC para recuperar os imóveis de Itambi.
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