23 de Fevereiro de 2012
Nos dias de enchentes, a população do Jardim Catarina, em São Gonçalo, pode contar com uma ‘tropa’ de ‘guardiões’ para salvá-la. Não se trata de uma equipe de super-herois, mas sim de moradores que se dedicam a ajudar os vizinhos que, em muitos casos, perdem todos os seus pertences e têm até mesmo o risco de perder a vida. O ‘trabalho’ começa logo quando o céu é encoberto por nuvens escuras. Assim, a ‘tropa’ se reúne e começa a avisar a população e também a preparar as suas armas: barcos a motor e caminhões. Sem possuir um alerta – como existe em algumas áreas do Rio -, o aviso segue em uma bicicleta.
Assim que a possibilidade de chuva forte aparece, o comerciário Ípio Manoel de Oliveira, 53 anos, pega a sua inseparável bicicleta e vai orientando as pessoas que moram nos locais com risco de alagamento, principalmente das Ruas 4, 5, 6 e 7.
“Por morar há 30 anos no bairro conheço os locais mais críticos. Pego a bicicleta e corro na casa das pessoas, orientando para elas ficarem atentas e, se for o caso, procurar um local seguro para se abrigar. Essa é a forma que encontramos para ajudar os nossos amigos”, disse Ípio.
No último dia 16, os ‘guardiões’ entraram em ação na chuva que demorou poucos minutos, mas já levou problemas para a população. “Estava em Saquarema e vi que o tempo estava fechando. Decidi voltar, pois fiquei pensando que os meus vizinhos poderiam precisar de ajuda. Gosto de pescar e tenho um barco, que sempre coloco nas águas das enchentes para ajudar as pessoas”, relatou o motorista Nelson Gonçalves, o Nelsinho, 46, completando. “Fico muito orgulhoso de ajudar os meus vizinhos. Toda vez que isso acontecer, estarei aqui para ajudar”, contou Nelsinho, que coloca a sua lancha ‘ Silvana’ para ajudar os amigos.
História – Em vários anos, o número de vezes que a ‘tropa’ de ‘guardiões’ atuou em prol dos vizinhos é incalculável. Mas, de acordo com todos, o temporal de 6 de abril de 2010 é lembrado como a pior de todas. Centenas de pessoas perderam as suas casas e tiveram que ficar em abrigos.
“O cenário era devastador. Camas, colchões, geladeiras, fogões e outros objetos jogados no meio da rua. Pedimos ajuda de outros amigos para doações de alimentos e roupas. Chegamos a ocupar uma loja para fazer sopa para as pessoas que estavam abrigadas num colégio”, lembrou Ípio.
Muitas pessoas precisaram de ajuda para ser resgatadas. Até mesmo um bombeiro teve que receber ajuda. “Entramos com o barco a motor. O bombeiro estava num barco a remo e não aguentou a correnteza. Ele pediu ajuda e o resgatamos. É uma loucura, passamos por cima de muros e até mesmo de tetos de carros. Quem não está aqui no dia nem imagina como fica a situação”, relatou Nelsinho.
Ípio lembrou de um dos resgates mais emocionantes que presenciou. “Entramos na casa e uma mãe estava segurando a sua filha, recém-nascida, para o alto, para que ela não se afogasse. Não sei nadar, mas nessa hora fazemos de tudo para ajudar as pessoas.
Heroi também sofreu com enchente
Até mesmo quem faz parte da ‘tropa’ de ‘guardiões’ sofreu com a enchente do dia 6 de abril de 2010. O empresário Odair Brum, 38, teve a sua casa, na Rua 7, invadida pela água.
“A água quase chegou no teto. Tivemos que sair por cima do muro. Depois disso abandonei a casa e fui morar em outra. Minha esposa e meus filhos foram para a casa de amigos e eu resolvi ajudar as pessoas, que também estavam enfrentando essa situação”, contou Odair.
O Jardim Catarina sempre sofreu com os problemas de enchente. Assim, a ‘tropa’ de ‘guardiões’ vem de muitos anos e gerações. “Participo dessa ajuda desde adolescente. O bairro fica destruído, é muita gente precisando de ajuda”, contou o caminhoneiro Fabiano dos Santos, o Bibi, 37.
AMIGOS RESGATARAM MARIA E JESUS
Em frente ao antigo campo do Esperança, a família de Jesus vive em uma casa que foi abalada pela enchente do dia 6 de abril de 2010. O aposentado Elias de Jesus, 70 anos, ainda lembra do desespero que foi para a sua família, que teve que contar com a ajuda dos amigos de Jardim Catarina. A residência fica na Rua Correia D’Ávila, ao lado do Rio Alcântara, em um dos pontos mais críticos do bairro.
“Sempre sofremos com as enchentes, mas nenhuma como aquele dia. Tivemos que ser resgatados pelos amigos, senão poderíamos até mesmo perder a vida”, contou seu Elias. Que vive com a esposa e os dois filhos.
“A nossa esperança é que não chova forte, pois ficamos com medo todas as vezes”, disse a esposa de Elias, Maria dos Remédios de Jesus, 57.
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